O Post de João sobre a “Volta do defunto” e o de Bernardo Jurema sobre o Recife e suas mazelas, me fizeram refletir sobre o fato de como as questões do cotidiano estão intrinsecamente ligadas àquilo que estudamos e como nos posicionamos diante desse cotidiano. Academia, leituras, teóricos, egos inflados, vaidades de todas as idades e de diferentes Unidades Federativas só parecem acentuar e dificultar a compreensão das nossas experiências as mais corriqueiras. A contra postura, mesmo que inconscientemente, crítica que se instaura, parece limitar a visão daqueles que de tão enfurecidos com a situação atual se colocam em posições dicotômicas e excludentes. A perspectiva que parece imperar é a de uma visão que opta por uma perspectiva monista da vida em seus múltiplos aspectos. De acordo com esse ponto de vista as polarizações e falta de necessidade de se pensar mais aprofundadamente sobre algumas categorias analíticas impedem a percepção mais acurada daquilo que deu sustentação e foi de fato a gênese do processo de conhecimento, já que se deve partir da vida em suas diferentes configurações para que daí seja viabilizado o desnudamento e a compreensão da mesma.
Não deixemos que os “mortos” morram quando eles nos são demasiadamente úteis e nem percamos a certeza de que o nosso cotidiano grita por explicações e soluções.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Crise tira defunto da cova
No Hermeneuta (no post Mundo de loucos) encontramos a seguinte informação:
Editora vendeu em um mês nº de cópias de ‘O Capital’ que vendia em um ano.
- A atual crise financeira global parece estar aumentando a busca por obras de um dos maios conhecidos e ferozes críticos do capitalismo: o pai do comunismo, Karl Marx.
A editora alemã Karl Dietz, dedicada a livros de pensamento de esquerda disse já ter vendido, neste ano, 1,5 mil cópias da obra mais famosa de Marx, O Capital, escrita em 1867.Só no mês passado, foram vendidas 200 cópias, o mesmo número que, no passado, costumava ser vendido em um ano.
A Dietz não é a única editora a publicar obras de Marx, mas, segundo a imprensa alemã, lojas ao redor da Alemanha têm visto um aumento de 300% na venda do livro nos últimos meses.O correspondente da BBC David Bamford afirma que muitos vêem a atual crise como um fracasso do capitalismo e que a obra de Marx poderia ajudar a entender o que deu errado. Segundo Bamford, o número de visitantes a Trier, na Alemanha, cidade natal de Marx, subiu neste ano para 40 mil.
O curador do museu da cidade afirma que já perdeu as contas de quantos visitantes ele ouviu dizer que Marx estava, afinal, certo em suas críticas ao capitalismo.
Credo cruz, será que esse povo germânico estaria pensando nessas palavras e se dizendo "eu já li isso em algum lugar"?
“Em um sistema de produção onde toda a continuidade do processo de reprodução depende do crédito, quando este acaba subitamente e somente transações com dinheiro passam a ser aceitas, é inevitável que ocorra uma crise, uma tremenda demanda por meios de pagamento. É por isso que, à primeira vista, a crise inteira parece ser somente uma crise de crédito e de moeda. E de fato trata-se apenas da conversibilidade de letras de câmbio em dinheiro. No entanto, a maioria destes papéis representam compras e vendas reais, cuja extensão – para muito além das necessidades da sociedade – é, afinal, a base de toda a crise. Ao mesmo tempo, há uma quantidade enorme destas letras de câmbio que representam mera especulação, que agora revela sua face e colapsa; especulação fracassada com o capital de outras pessoas, com o capital-mercadoria depreciado ou invendável, ou com ganhos que nunca mais poderão ser realizados. Todo esse sistema artificial de expansão forçada do processo de reprodução evidentemente não pode ser resolvido com um banco, por exemplo, o Banco da Inglaterra, entregando a todos esses especuladores o capital que lhes falta através de seus títulos, comprando mercadorias depreciadas a seus antigos valores nominais. Aliás, é nesse momento que tudo começa a parecer distorcido, já que nesse mundo de papel, o preço real e seus fatores reais desaparecem, deixando visível somente metais, moedas, cédulas, letras de câmbio e títulos.” (Karl Marx, O Capital, vol. 3, cap. XXX.)
Crise aumenta procura por obras de Karl Marx na Alemanha
Editora vendeu em um mês nº de cópias de ‘O Capital’ que vendia em um ano.
- A atual crise financeira global parece estar aumentando a busca por obras de um dos maios conhecidos e ferozes críticos do capitalismo: o pai do comunismo, Karl Marx.
A editora alemã Karl Dietz, dedicada a livros de pensamento de esquerda disse já ter vendido, neste ano, 1,5 mil cópias da obra mais famosa de Marx, O Capital, escrita em 1867.Só no mês passado, foram vendidas 200 cópias, o mesmo número que, no passado, costumava ser vendido em um ano.
A Dietz não é a única editora a publicar obras de Marx, mas, segundo a imprensa alemã, lojas ao redor da Alemanha têm visto um aumento de 300% na venda do livro nos últimos meses.O correspondente da BBC David Bamford afirma que muitos vêem a atual crise como um fracasso do capitalismo e que a obra de Marx poderia ajudar a entender o que deu errado. Segundo Bamford, o número de visitantes a Trier, na Alemanha, cidade natal de Marx, subiu neste ano para 40 mil.
O curador do museu da cidade afirma que já perdeu as contas de quantos visitantes ele ouviu dizer que Marx estava, afinal, certo em suas críticas ao capitalismo.
Credo cruz, será que esse povo germânico estaria pensando nessas palavras e se dizendo "eu já li isso em algum lugar"?
“Em um sistema de produção onde toda a continuidade do processo de reprodução depende do crédito, quando este acaba subitamente e somente transações com dinheiro passam a ser aceitas, é inevitável que ocorra uma crise, uma tremenda demanda por meios de pagamento. É por isso que, à primeira vista, a crise inteira parece ser somente uma crise de crédito e de moeda. E de fato trata-se apenas da conversibilidade de letras de câmbio em dinheiro. No entanto, a maioria destes papéis representam compras e vendas reais, cuja extensão – para muito além das necessidades da sociedade – é, afinal, a base de toda a crise. Ao mesmo tempo, há uma quantidade enorme destas letras de câmbio que representam mera especulação, que agora revela sua face e colapsa; especulação fracassada com o capital de outras pessoas, com o capital-mercadoria depreciado ou invendável, ou com ganhos que nunca mais poderão ser realizados. Todo esse sistema artificial de expansão forçada do processo de reprodução evidentemente não pode ser resolvido com um banco, por exemplo, o Banco da Inglaterra, entregando a todos esses especuladores o capital que lhes falta através de seus títulos, comprando mercadorias depreciadas a seus antigos valores nominais. Aliás, é nesse momento que tudo começa a parecer distorcido, já que nesse mundo de papel, o preço real e seus fatores reais desaparecem, deixando visível somente metais, moedas, cédulas, letras de câmbio e títulos.” (Karl Marx, O Capital, vol. 3, cap. XXX.)
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quinta-feira, 4 de setembro de 2008
É bonito
Um Velho
(Konstantinos Kaváfis)
No fundo do café tão barulhento
curvado sobre a mesa pousa um velho
com um jornal em frente e sem companhia.
E na desgraça da velhice vergonhosa
pensa quão pouco desfrutou dos anos
que tinha força, e fala e beleza
Sabe que envelheceu muito: o vê e sempre o sente.
Embora o tempo que era jovem lhe parece
como ontem. Que distância pequena
E pensa, a razão como se enganava
e como a confiança sempre o louco
a mentirosa que dizia “Deixa, tens tempo ainda”.
Lembra os desejos que abnegava e o quanto
prazer sacrificava. A sua boba cuca
toda perdida oportunamente caçoa.
...Mas de pensar e de lembrar-se tanto
o velho ficou tonto. E adormeceu
na mesa do café se segurando.
(Konstantinos Kaváfis)
No fundo do café tão barulhento
curvado sobre a mesa pousa um velho
com um jornal em frente e sem companhia.
E na desgraça da velhice vergonhosa
pensa quão pouco desfrutou dos anos
que tinha força, e fala e beleza
Sabe que envelheceu muito: o vê e sempre o sente.
Embora o tempo que era jovem lhe parece
como ontem. Que distância pequena
E pensa, a razão como se enganava
e como a confiança sempre o louco
a mentirosa que dizia “Deixa, tens tempo ainda”.
Lembra os desejos que abnegava e o quanto
prazer sacrificava. A sua boba cuca
toda perdida oportunamente caçoa.
...Mas de pensar e de lembrar-se tanto
o velho ficou tonto. E adormeceu
na mesa do café se segurando.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Misoginia de blogue: de pessoa e/ou instituição
Adoro uma polêmica blogueira. Vamos a mais uma, e das boas.
Tentando fugir um pouco do meu último texto, que mencionou minha preocupação com o tipo de leitura que poderia ser feita do Pedagogia da punheta, eu concebo uma pequena reflexão sobre o machismo presente numa enquete sobre as musas das Olimpíadas de Pequim. A polêmica se encontra principalmente nos comentários e vai ser justamente a partir deles que irei discorrer algo a respeito.
Primeiro gostaria de me solidarizar com as opiniões da “ala feminista”. E aqui não falo de feminismo como o engraçadinho Ariston(comentários) que assim se referiu às mulheres que repudiaram com razão o texto e as fotos escolhidas para ironizar o propósito de seus argumentos. Para mim, heterossexual do sexo masculino, também é triste perceber que a misoginia (que não é a meu ver o pior de nossos males machistas, acho que a homofobia é bem mais horrenda e aceita) possa passar tão facilmente como algo natural e comum e, para fins hipocritamente cômicos, se passar por mera “brincadeira de mau gosto”.
Porém, no seu ridículo, o tal do Ariston coloca algo interessante e que deve ser pensado: “As PESSOAS de um modo geral (intelectualizadas ou não) têm seus gostos.” Uma tautologia barata, sem dúvida, mas que tem uma lógica social a ser pensada no que se diz sobre o machismo e a misoginia. Afinal de contas, quem tem direito de ser machista numa sociedade machista?
O problema levantado por Cynthia Hamilin não é propriamente da misoginia pura e simples, mas da posição institucional da mesma, o que é bem pior. Vejamos o que ela questiona: “É lamentável que um blog escrito por professores universitários reproduza este tipo de misoginia. As mulheres se saíram bem nas olimpíadas, “mas isso não importa” (que frase infeliz!): o que importa é que elas são “gostosas”. Já pararam para pensar que talvez essas mulheres prefiram ser reconhecidas como atletas que são?” A questão colocada por Hamilin é bem mais a de saber quem fala o que e o que está representado naquela fala, do que uma mera crítica a idiotice de um machista qualquer.
É claro que Pierre Lucena, cidadão sorridente e bem vestido, tem todo o direito de expressar suas opiniões sobre as qualidades que ele mais aprecia numa mulher (e não é preciso ir muito longe para entender que tipo de “visão de mulher” ele tem). Mas o problema é que Pierre Lucena fala enquanto professor da UFPE, que, se fosse instituição de respeito, pediria satisfação a respeito de opiniões expressadas publicamente tão desprovidas de valor\rigor\seriedade acadêmica, fato que coloca em jogo e em questão a própria instituição.
Volto à tautologia “as pessoas de um modo geral têm seus gostos” e ao importante adendo “intelectualizadas ou não”. Eu concordo plenamente com o argumento de Cynthia Hamilin ao mesmo tempo que reflito sobre o significado que a ruptura que ele pressupõe revela: o machismo estrutural que se desvela de maneira violenta nas maneiras de apreciar (a palavra mais apropriada seria depreciar) as mulheres exposta na enquête revela ao mesmo tempo a fragilidade da assimilação dos valores da mulher como ser humano pleno (pautados no feminismo ou além dele) no tecido social e o pouco respaldo que o debate contra a misoginia alcançou na estrutura de poder das relações universitárias. Nesse sentido, quero crer, o caso não é de feminismo pura e simplesmente, mas algo mais sério, no mínimo de denúncia de falta de decorro profissional onde alguém, em certo sentido, usando do status atribuído por uma instituição (Professor da UFPE), diz coisas não sensatas (adoro eufemismos) a respeito de seu modo de depreciar mulheres.
Tentando fugir um pouco do meu último texto, que mencionou minha preocupação com o tipo de leitura que poderia ser feita do Pedagogia da punheta, eu concebo uma pequena reflexão sobre o machismo presente numa enquete sobre as musas das Olimpíadas de Pequim. A polêmica se encontra principalmente nos comentários e vai ser justamente a partir deles que irei discorrer algo a respeito.
Primeiro gostaria de me solidarizar com as opiniões da “ala feminista”. E aqui não falo de feminismo como o engraçadinho Ariston(comentários) que assim se referiu às mulheres que repudiaram com razão o texto e as fotos escolhidas para ironizar o propósito de seus argumentos. Para mim, heterossexual do sexo masculino, também é triste perceber que a misoginia (que não é a meu ver o pior de nossos males machistas, acho que a homofobia é bem mais horrenda e aceita) possa passar tão facilmente como algo natural e comum e, para fins hipocritamente cômicos, se passar por mera “brincadeira de mau gosto”.
Porém, no seu ridículo, o tal do Ariston coloca algo interessante e que deve ser pensado: “As PESSOAS de um modo geral (intelectualizadas ou não) têm seus gostos.” Uma tautologia barata, sem dúvida, mas que tem uma lógica social a ser pensada no que se diz sobre o machismo e a misoginia. Afinal de contas, quem tem direito de ser machista numa sociedade machista?
O problema levantado por Cynthia Hamilin não é propriamente da misoginia pura e simples, mas da posição institucional da mesma, o que é bem pior. Vejamos o que ela questiona: “É lamentável que um blog escrito por professores universitários reproduza este tipo de misoginia. As mulheres se saíram bem nas olimpíadas, “mas isso não importa” (que frase infeliz!): o que importa é que elas são “gostosas”. Já pararam para pensar que talvez essas mulheres prefiram ser reconhecidas como atletas que são?” A questão colocada por Hamilin é bem mais a de saber quem fala o que e o que está representado naquela fala, do que uma mera crítica a idiotice de um machista qualquer.
É claro que Pierre Lucena, cidadão sorridente e bem vestido, tem todo o direito de expressar suas opiniões sobre as qualidades que ele mais aprecia numa mulher (e não é preciso ir muito longe para entender que tipo de “visão de mulher” ele tem). Mas o problema é que Pierre Lucena fala enquanto professor da UFPE, que, se fosse instituição de respeito, pediria satisfação a respeito de opiniões expressadas publicamente tão desprovidas de valor\rigor\seriedade acadêmica, fato que coloca em jogo e em questão a própria instituição.
Volto à tautologia “as pessoas de um modo geral têm seus gostos” e ao importante adendo “intelectualizadas ou não”. Eu concordo plenamente com o argumento de Cynthia Hamilin ao mesmo tempo que reflito sobre o significado que a ruptura que ele pressupõe revela: o machismo estrutural que se desvela de maneira violenta nas maneiras de apreciar (a palavra mais apropriada seria depreciar) as mulheres exposta na enquête revela ao mesmo tempo a fragilidade da assimilação dos valores da mulher como ser humano pleno (pautados no feminismo ou além dele) no tecido social e o pouco respaldo que o debate contra a misoginia alcançou na estrutura de poder das relações universitárias. Nesse sentido, quero crer, o caso não é de feminismo pura e simplesmente, mas algo mais sério, no mínimo de denúncia de falta de decorro profissional onde alguém, em certo sentido, usando do status atribuído por uma instituição (Professor da UFPE), diz coisas não sensatas (adoro eufemismos) a respeito de seu modo de depreciar mulheres.
O machismo por parte de alguns docentes da UFPE. Indignada!
Ontem recebi um e-mail coletivo da Profa. Cynthia Hamlin. O teor da mensagem abordava o conteúdo de um blog formado por professores da UFPE, infelizmente.
Os digníssimos docentes tiveram a coragem de publicar um post sobre, "As musas das Olimpíadas". As proposições e comentários são os mais esdrúxulos possíveis e mostram como eles reproduzem práticas odiosamente machistas. O pior é que acham que estão absolutamente corretos.
Vou colocar o endereço desse blog que possui a pretensão de falar sobre política. Piada, não é?
http://acertodecontas.blog.br/esportes/musas-da-olimpada-a-minha-favorita/
Os digníssimos docentes tiveram a coragem de publicar um post sobre, "As musas das Olimpíadas". As proposições e comentários são os mais esdrúxulos possíveis e mostram como eles reproduzem práticas odiosamente machistas. O pior é que acham que estão absolutamente corretos.
Vou colocar o endereço desse blog que possui a pretensão de falar sobre política. Piada, não é?
http://acertodecontas.blog.br/esportes/musas-da-olimpada-a-minha-favorita/
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Sem Título
De algum modo, tudo que pretende começar de forma despretensiosa parece que caí na esparrela da pretensão. Ou a gente é muito besta e não percebe que nossas próprias idéias pseudo-humildes são na verdade tentativas de chamar a atenção para algum fato, acontecimento, ou realmente fomos tomados, constituídos socialmente, ao longo de nossa caminhada acadêmica, familiar, etc., para uma visão de mundo e do mundo que nos indica uma direção de oposição a tudo o que se compreende como sendo arrogante. Sei que ultimamente estou tendendo para uma perspectiva que segue por um único caminho, mas de uns tempos pra cá (vejam, não sei se esse espaço é destinado pra desabafos, mas de todo modo, sinto-me à vontade para fazê-lo).
Quando eu deixo de intitular algo isso significa que já estou intitulando, isso é óbvio. Contudo, esse meu início foi só um pretexto para falar o que realmente quero. Lembro-me uma vez que numa aula de alguma disciplina do doutorado eu falei (coisa rara!) sobre algo que tinha uma acepção semelhante, na forma de pensar, do que expus acima. Até hoje, e pela reação de alguns colegas, acho que falei alguma coisa que possuía certa coerência. Mas a questão que perpassa minhas idéias é se concretamente nossos atos são de alguma forma, coerentes.
Por mais racionais que tentemos ser, tudo parece que se mistura. Tomemos a mim como exemplo. Apesar de tentar agir de forma racional, e acho que tenho posto isso em prática em termos acadêmicos, na minha vida afetiva, as coisas que antes me pareciam tão coesas e definidas, foram sendo mitigadas, inicialmente, de forma repentina, e mais tarde de maneira lenta e gradual. Isso me fez perceber que um ser social não pode ser apartado de suas relações, como um todo.
Ao retomar meu projeto de tese, sobretudo, meu plano de tese, percebi que continuo muito presa ao que tanto queria me desvencilhar que é a análise do pensamento de Lukács. Não acho que esse seja um exercício menor, mas a sensação que tenho é a de que ainda não entrei na pesquisa que quero fazer. Estou fichando três capítulos da sua obra final, “A Ontologia do Ser Social”. É interessante que a cada nova leitura se torna perceptível um amadurecimento de quem lê. Fico na esperança de que com o término ou interrupção desse meu fichamento eu possa vislumbrar algo mais prático, em todas as instâncias da minha vida, se é assim que se pode nomear.
Todavia, acredito que Lukács[i] está correto quando afirma que “uma posição crítica só é fecunda quando é capaz de reconhecer as contradições da posição criticada, seu eventual aspecto progressista” (1969:169)
[i] HOLTZ, H., H. KOFLER, L. e ABENDROTH, W. (1969). Conversando com Lukács.
Tradução de Giseh Vianna Konder. Rio de Janeiro, Paz e Terra.
Quando eu deixo de intitular algo isso significa que já estou intitulando, isso é óbvio. Contudo, esse meu início foi só um pretexto para falar o que realmente quero. Lembro-me uma vez que numa aula de alguma disciplina do doutorado eu falei (coisa rara!) sobre algo que tinha uma acepção semelhante, na forma de pensar, do que expus acima. Até hoje, e pela reação de alguns colegas, acho que falei alguma coisa que possuía certa coerência. Mas a questão que perpassa minhas idéias é se concretamente nossos atos são de alguma forma, coerentes.
Por mais racionais que tentemos ser, tudo parece que se mistura. Tomemos a mim como exemplo. Apesar de tentar agir de forma racional, e acho que tenho posto isso em prática em termos acadêmicos, na minha vida afetiva, as coisas que antes me pareciam tão coesas e definidas, foram sendo mitigadas, inicialmente, de forma repentina, e mais tarde de maneira lenta e gradual. Isso me fez perceber que um ser social não pode ser apartado de suas relações, como um todo.
Ao retomar meu projeto de tese, sobretudo, meu plano de tese, percebi que continuo muito presa ao que tanto queria me desvencilhar que é a análise do pensamento de Lukács. Não acho que esse seja um exercício menor, mas a sensação que tenho é a de que ainda não entrei na pesquisa que quero fazer. Estou fichando três capítulos da sua obra final, “A Ontologia do Ser Social”. É interessante que a cada nova leitura se torna perceptível um amadurecimento de quem lê. Fico na esperança de que com o término ou interrupção desse meu fichamento eu possa vislumbrar algo mais prático, em todas as instâncias da minha vida, se é assim que se pode nomear.
Todavia, acredito que Lukács[i] está correto quando afirma que “uma posição crítica só é fecunda quando é capaz de reconhecer as contradições da posição criticada, seu eventual aspecto progressista” (1969:169)
[i] HOLTZ, H., H. KOFLER, L. e ABENDROTH, W. (1969). Conversando com Lukács.
Tradução de Giseh Vianna Konder. Rio de Janeiro, Paz e Terra.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Aziz Ab’ Sáber em contraposição ao pedantismo acadêmico
Há duas semanas tive a oportunidade de na SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), que ocorreu em Campinas, assistir a uma palestra do maior geógrafo brasileiro vivo, Aziz Ab’ Sáber.
Hoje pela manhã também tive a possibilidade de conferir, infelizmente, a existência de uma diferença absurda e gritante entre a maturidade de um grande educador e pesquisador e a imaturidade e o pedantismo de alguns jovens que pouco ou nada sabem sobre o fazer ciência humana. Aparentemente, e me desculpem os pré-julgamentos que nesse caso me parecem inevitáveis, a falta de uma perspectiva humanística dos jovens com os quais topei.
Poucas vezes na minha curta vida acadêmica tive o privilégio de presenciar uma aula sobre geografia, algo distante do meu campo de pesquisa (o que não deveria ser, mas...). Quando Ab’Saber começou a discorrer sobre suas experiências de pesquisa, o mapa físico, político e econômico do Brasil fora se desenhando na cabeça da maioria dos presentes, tal a sua capacidade de transformar algo difícil de compreender em um exercício cognitivo acessível e de fácil apreensão. A sobreposição desses três aspectos formava um todo bonito de se imaginar, palpável e ao mesmo tempo preocupante, tal a profundidade das diferenças sócio-econômicas existentes no nosso país. Norte e Nordeste foram os focos principais da apresentação dele. A primeira região, por suas pesquisas sobre uma comunidade no Pará e a segunda, por desenvolver uma abordagem, de modo a se posicionar, acerca da transposição do Rio São Francisco. Sem entrar nas explicações sobre os estudos feitos por ele, foi fundamental perceber como Ab’Saber apresentou cientificamente as duas regiões de uma maneira pouco vista. A importância da pesquisa de campo, as leituras, o conhecimento adquirido nos livros, nas pesquisas in loco e nas conversas/entrevistas com a população dos locais pesquisados possibilitaram ao estudioso uma formação científica profunda e sem os preconceitos existentes na minha visão imatura, como fica claro ao me referir aos jovens de perspectiva pouco humanista.
Bem, voltando aos “meus jovens” compreendi logo imediatamente que eles são estudantes de Ciências Sociais da UFPE, portanto, do CFCH. Até o início de agosto, realiza-se na UNICAMP o Encontro Brasileiro de Ciência Política. Os narizes em pé, ou a timidez dos jovens me fizeram voltar a Ab’ Saber e observar que a maturidade e um longo percurso trilhado com uma dose significativa de humildade podem transformar a ciência e o ser que a produz em algo crítico e reflexivo. No meu “achismo” acredito que mesmo que esses estudantes, que provavelmente são bem esforçados academicamente, distanciam-se sobremaneira de um Ab’ Saber. Não na genialidade, mas na capacidade de pensar sobre si mesmos como futuros cientistas e de refletir sobre o que irão produzir.
Ao fim da palestra do Prof. Aziz Ab’Saber, ele fez uma comparação contundente e bela entre um episódio presenciado no Norte do país e outro visto na TV, na cidade de São Paulo. As diferenças que perpassam o Brasil fizeram o pesquisador do alto dos seus 83 anos se emocionar e conseqüentemente emocionar a todos nós. O primeiro estudioso a classificar o território brasileiro em domínios morfoclimáticos foi aplaudido de pé.
Hoje pela manhã também tive a possibilidade de conferir, infelizmente, a existência de uma diferença absurda e gritante entre a maturidade de um grande educador e pesquisador e a imaturidade e o pedantismo de alguns jovens que pouco ou nada sabem sobre o fazer ciência humana. Aparentemente, e me desculpem os pré-julgamentos que nesse caso me parecem inevitáveis, a falta de uma perspectiva humanística dos jovens com os quais topei.
Poucas vezes na minha curta vida acadêmica tive o privilégio de presenciar uma aula sobre geografia, algo distante do meu campo de pesquisa (o que não deveria ser, mas...). Quando Ab’Saber começou a discorrer sobre suas experiências de pesquisa, o mapa físico, político e econômico do Brasil fora se desenhando na cabeça da maioria dos presentes, tal a sua capacidade de transformar algo difícil de compreender em um exercício cognitivo acessível e de fácil apreensão. A sobreposição desses três aspectos formava um todo bonito de se imaginar, palpável e ao mesmo tempo preocupante, tal a profundidade das diferenças sócio-econômicas existentes no nosso país. Norte e Nordeste foram os focos principais da apresentação dele. A primeira região, por suas pesquisas sobre uma comunidade no Pará e a segunda, por desenvolver uma abordagem, de modo a se posicionar, acerca da transposição do Rio São Francisco. Sem entrar nas explicações sobre os estudos feitos por ele, foi fundamental perceber como Ab’Saber apresentou cientificamente as duas regiões de uma maneira pouco vista. A importância da pesquisa de campo, as leituras, o conhecimento adquirido nos livros, nas pesquisas in loco e nas conversas/entrevistas com a população dos locais pesquisados possibilitaram ao estudioso uma formação científica profunda e sem os preconceitos existentes na minha visão imatura, como fica claro ao me referir aos jovens de perspectiva pouco humanista.
Bem, voltando aos “meus jovens” compreendi logo imediatamente que eles são estudantes de Ciências Sociais da UFPE, portanto, do CFCH. Até o início de agosto, realiza-se na UNICAMP o Encontro Brasileiro de Ciência Política. Os narizes em pé, ou a timidez dos jovens me fizeram voltar a Ab’ Saber e observar que a maturidade e um longo percurso trilhado com uma dose significativa de humildade podem transformar a ciência e o ser que a produz em algo crítico e reflexivo. No meu “achismo” acredito que mesmo que esses estudantes, que provavelmente são bem esforçados academicamente, distanciam-se sobremaneira de um Ab’ Saber. Não na genialidade, mas na capacidade de pensar sobre si mesmos como futuros cientistas e de refletir sobre o que irão produzir.
Ao fim da palestra do Prof. Aziz Ab’Saber, ele fez uma comparação contundente e bela entre um episódio presenciado no Norte do país e outro visto na TV, na cidade de São Paulo. As diferenças que perpassam o Brasil fizeram o pesquisador do alto dos seus 83 anos se emocionar e conseqüentemente emocionar a todos nós. O primeiro estudioso a classificar o território brasileiro em domínios morfoclimáticos foi aplaudido de pé.
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